Rita de Cássia Fraga Machado
Universidade do Estado do Amazonas e idealizadora do projeto As Pensadoras.
O Brasil está em permanente luto. A cada dez minuto uma mulher é morta no Brasil segundo dados da ONU mulher. Com pouca esperança para as que ficam, sobrevivem e atuam na defesa dos direitos humanos das mulheres. Pensamentos e ações negacionistas, agressivos, misóginos e racistas que formam uma avalanche de sensações que afirmam “desse jeito não dá para continuar, ninguém mais aguenta”. Ninguém mais aguenta, mas naturalizam a violência, um verdadeiro paradoxo. Os impactos da COVID-19 sobre as mulheres, os impactos das enchentes e da seca extrema no norte do Brasil criam desvalorização e sobrecargas de trabalho e emoções imagináveis. A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa Etienne advertiu que os Estados através de interrupções de políticas de saúde e no cuidado das mulheres “destruiu” mais de 20 anos de progresso na redução da mortalidade materna e o aumento do acesso ao planejamento familiar na América Latina e no Caribe[1]. Isso também é morte!
Tragédia, sim, tragédia que mata e sufoca diariamente as mulheres. Temíamos isso em 2016 como Golpe na presidenta Dilma, temíamos tanto que hoje o que mais repetimos às pessoas que percebem o contexto atual – ‘é: “eu avisei” como se ficar repetindo esse jargão adiantasse algo. É uma avalanche de tristeza, amargos, dores e morte diária. Tem dias que mesmo com muita esperança a gente não consegue encontrar conforto porque todos dias é um ataque às mulheres e ao nosso modo de existir. Existe um projeto de morte em curso e essa afirmação não é loucura, pelo contrário, é real. A guerra entre Rússia-EUA (Ucrânia) o genocídio do povo palestino e dos povos originários no Brasil. Esta violência toda impacta profundamente as mulheres. Um mundo de crises sem sombras de dúvidas.
Essas reflexões são urgentes na trasnformação do Brasil. Nunca foi tão necessária essa ação feminista, ou seja, a importância de se conectar com a realidade e avançarmos. “Mulheres transformando o futuro”. Sem essa retomada, pelas mãos e pensamento das mulheres os projetos históricos de transformação, como os feminismos, a agroecologia, mais participação das mulheres em espaços públicos e mesma a conquista do voto feminino continuarão ameaçados e destruídos.
Transformar o Brasil exigirá termos a forte capacidade de resiliência. Para que esse trabalho seja realizado com muito estudo, esperança e amor. Palavras que as mulheres conhecem seu valor e seus sentidos. A Resiliência é capaz de acessar memórias de um Brasil sem fome, com Universidade Pública em processo de democratização e melhoria da vida das pessoas, queremos um Brasil vivo uma Universidade atuante, uma sociedade consciente.
Transformar o Brasil exigirá coragem. Coragem para enfrentar o que for necessário de forma coletiva e amorosa, sem perder o rigor da luta, pois só a luta é capaz de nos movimentar e como diz Rosa Luxemburgo só sente as amarras sociais quem se movimenta. Movimentai-nos Mulheres!
Transformar o Brasil exigirá Respeito. Respeito porque as mulheres são do tamanho do Brasil, as mulheres Brasileiras miscigenadas trazem consigo memórias, vivências, experiências, sabedorias e vontade de mudança, muita vontade de mudança. E organizar uma luta tendo essa dimensão exigirá muito amor, estudo e acolhimento sincero de cada uma.
Transformar o Brasil exigirá capacidade de mudança imediata. E nos parece que essa é a mais difícil de ser compreendida na prática. Portanto é importante estudar, estarmos atentas e juntas num movimento teórico-prático com vistas a uma relação de práxis feminista agirmos. Nosso método não poderá ser deixado de lado, pelo contrário, ele precisa estar pulsando em nossas cabeças e corações ampliando visões e articulando perspectivas para a transformação social.
Transformar o Brasil exigirá visibilidade. Visibilizar mulheres e seus pensamentos é uma ato fundamental e contra-hegemônico. Que neste 8 de março a sociedade Brasileira possa conhecer Lélia Lélia González, Heleieth Saffioti, Ivone Gebara, Márcia Kamabeba, Altaci Kokama, Eliane Potigua, Irmã Doroti, Bernadete Quilombola, Berta Lurtz mulheres que usaram e usam sua voz e intelectualidade em prol de uma sociedade justa e para todas nós.
[1] Fonte: OPAS, 26 Maio 2021 – Acesso em 07/03/2022.