As guerras e a banalidade do mal

Por: Cecilia Pires

O cenário das guerras atuais expressa um roteiro programado, em que a dominação pelo poder econômico e pelos instrumentos bélicos usados, reforça a expressão banalidade do mal, criada por Hannah Arendt, pensadora política que escreveu sobre as atrocidades do nazismo, nos anos 30 do século passado. Usou essa expressão para significar o vazio do pensamento, a incapacidade dos homens de pensarem sobre suas ações.

            Os conflitos armados podem ser vistos, a partir de várias causas tais como religiosas, étnicas, políticas, econômicas, disputas territoriais sendo cada uma justificadora dos ataques realizados para aniquilar o inimigo. Sem nenhuma reflexão sobre os resultados de suas ações, os donos do poder bélico são incapazes de pensar acerca do mal. Agem como se tivessem trocando um parafuso, automaticamente.

            A banalidade do mal surge encarnada, no discurso de quem deflagra a guerra, como o cumprimento de uma tarefa cívica. O argumento é que se está a responder a uma ofensa, a um perigo iminente, sendo necessária a criação das condições de defesa e proteção aos seus patrícios.

            Essa encenação de cuidado com os seus motiva os que articulam as guerras a construírem uma explicação banal. Os outros são perigosos, são inimigos e não podem usufruir dos mesmos direitos como suas crenças, seus territórios, seus valores étnicos e culturais, seu ordenamento político e sua organização econômica. Os outros, como inimigos têm que viverem sob o jugo de quem tem o capital e o poder de mando. Devem ser vigiados, contidos e se necessário, aniquilados para o bem da humanidade como exemplo de combate ao mal. Qual é o mal? Uma banalidade, sentir-se iguais a todos.  Os inimigos são caracterizados como incômodos. Desejam as mesmas vantagens econômicas e tecnológicas em seus países e espaços geográficos, tais como as que existem nos países ricos e poderosos.

            Não importa se a população civil está desprotegida, se as famílias estão desabrigadas, se as escolas, os templos e hospitais podem ser atingidos por bombas, obuzes e toda espécie de armamento nuclear sofisticado. O que interessa é combater, devastar, expulsar, matar os que incomodam os que se entendem como donos do mundo.

            As mulheres e as crianças, peregrinas de desertos, fazem uma procissão diária à procura de alimento e abrigo, porque foram expulsas de seus lugares e tratadas como indesejáveis, no âmbito da terra em que nasceram. São as principais vítimas dos conflitos armados, arquitetados pelas mentes genocidas. Tudo isso como resultado da sanha assassina e mesquinha dos poderosos, cujas explicações banais, nas mesas de negociação, afrontam a inteligência de qualquer ser humano, que ainda não tenha sido torpedeado pelo absurdos argumentos dos dominadores.

            Em tempos nos quais as tecnologias avançam em todos os setores, como um troféu a ser exibido como o apogeu da IA, as subjetividades e os valores humanos estão sofrendo um processo de extinção, sem o menor constrangimento de parte dos protagonistas da violência.

            Que está ocorrendo? Como reagimos diante das notícias cotidianas de ataques bélicos? Como nos tocam as cenas de uma corrida maluca, em que cada um quer exibir mais e melhor seu armamento nuclear de rápida e fácil ação? Onde estamos? O que desejamos? Sermos espectadores dessas apresentações de mísseis hipersônicos assassinos? Até onde iremos? Haverá limites para a sede de domínio?

            A banalidade do mal se efetivou na consciência dos senhores da guerra. Não lhes sensibiliza a morte de inocentes, a doença, a ausência de abrigo, as hordas famintas, peregrinando pelas estradas dos países em guerra. Nada disso os toca.  Tal como o Leviatã crescem seus tentáculos para abarcar o mundo e efetivar suas ações de domínio.

            Há urgências éticas, neste momento do mundo, e uma delas é a subversão cívica, envolvendo uma rebeldia em nome da justiça. Precisa ser afirmada e realizada na abrangência de direitos iguais, que precisam ser cuidados e afirmados no planeta, por todos nós.