Por Susana de Castro
Nos últimos anos, tem crescido o interesse pelo feminismo decolonial. No entanto, para muitas pessoas, ainda não está claro o que o diferencia de outras vertentes feministas. É fundamental compreender que o feminismo decolonial propõe uma revisão profunda do feminismo hegemônico, de matriz europeia, devido às suas bases racistas, burguesas e ocidentais.
Historicamente, o feminismo nasce no contexto da modernidade, da chamada “era dos direitos”. Nesse cenário, desenvolveu-se apoiado em uma lógica de mundo que hierarquiza raças, separando os considerados superiores dos demais — os “outros”. Assim, as noções de igualdade e cidadania, ainda que aparentemente universais, sempre estiveram restritas a homens brancos. Com o surgimento dos movimentos feministas, essas reivindicações foram incorporadas por ativistas mulheres, mas sem romper, de fato, com a estrutura excludente original.
Contudo, é importante destacar que essa bandeira de igualdade nunca foi plenamente estendida a todas. As feministas autointituladas pioneiras sustentavam a ideia de que a opressão de gênero uniria todas as mulheres contra um inimigo comum: o patriarcado. No entanto, essa suposta universalidade mascarava o fato de que grandes parcelas da população feminina estavam excluídas das pautas defendidas.
Nesse sentido, o conceito de “mulher”, utilizado de forma generalizante, serviu como estratégia para legitimar um feminismo liberal, voltado principalmente aos anseios de uma classe média branca, heterossexual, urbana, que desejava acesso ao mercado de trabalho e ao controle sobre sua reprodução. Assim, esse discurso ocultava — ou ignorava — as demandas específicas de mulheres historicamente marginalizadas: negras, indígenas, empobrecidas, lésbicas, chicanas, moradoras de periferias e áreas rurais, entre tantas outras.
Com o tempo, tornou-se evidente o colapso desse modelo de representação superficialmente universalista. A ideia de uma essência feminina comum perdeu força, dando lugar à valorização da diversidade. De fato, somos múltiplas, plurais, e os nossos objetivos — especialmente no Sul Global — estão muito mais alinhados com os interesses das chamadas minorias sociais, que compõem a maioria da população, do que com as aspirações de mulheres que buscam ascensão individual em espaços de poder, muitas vezes sem romper com os sistemas de dominação.
Além disso, quando deslocamos o olhar para além dos centros urbanos e das grandes metrópoles, observamos que muitas mulheres do interior e das zonas agrárias não se sentem contempladas pelas pautas do feminismo institucionalizado, frequentemente importadas do Norte Global. O desafio, portanto, é reconhecer e valorizar as formas autônomas de organização e resistência que emergiram sem visibilidade midiática ou apoio institucional, mas que articulam práticas profundamente transformadoras.
Foi a filósofa argentina María Lugones a primeira a dar nome ao feminismo decolonial. Em sua perspectiva, essa abordagem resulta da articulação entre a crítica feminista às múltiplas formas de opressão — já expressas, por exemplo, pelo feminismo negro norte-americano com o conceito de interseccionalidade — e a teoria da colonialidade do poder, desenvolvida pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano.
Segundo Quijano, a noção moderna de raça foi construída como uma tecnologia de dominação, que permitiu às potências colonizadoras classificar os povos do mundo em grupos superiores e inferiores. Essa lógica justificou a escravidão, o extermínio e a exploração sistemática de populações não brancas — sobretudo as originárias da América, África e Ásia.
A partir dessa análise, Lugones propõe que o feminismo decolonial surge da fusão entre essas duas ferramentas críticas: a interseccionalidade e a colonialidade. Para ela, a colonização não apenas impôs uma hierarquia racial, mas também instituiu um sistema moderno-colonial de gênero, no qual tanto a raça quanto o gênero se tornaram instrumentos de dominação. A mulher colonizada era desumanizada por sua condição racial e por seu sexo, mas o seu “ser mulher” era construído como um ser inferior, animalizado — distante da feminilidade atribuída às europeias brancas.
Tanto Lugones quanto Quijano demonstram que a lógica colonial permanece ativa mesmo após o fim formal do colonialismo, através de dispositivos contemporâneos que seguem subordinando os corpos do Sul Global. No contexto do capitalismo globalizado, a força de trabalho de populações racializadas e empobrecidas continua sendo desvalorizada em comparação à de indivíduos brancos do Norte Global ou das elites locais.
É importante ressaltar que, mesmo antes da formulação conceitual do feminismo decolonial por María Lugones, já havia pensadoras latino-americanas trabalhando com essas questões. Um exemplo fundamental é Lélia Gonzalez, que, ao propor o conceito de “Améfricanidade”, indicava a necessidade de compreender o racismo brasileiro a partir de nossas raízes coloniais, cujos efeitos ainda estruturam as desigualdades contemporâneas.
O debate proposto pelo Feminismo Decolonial é urgente e necessário, dessa forma, a escola As Pensadoras está com inscrições abertas para o curso “Feminismo Decolonial: Pensadoras Indígenas”, que terá início no dia 25 de julho. A aula inaugural será transmitida pelo YouTube, no canal d’As Pensadoras, e pode ser acessada pelo link: youtube.com/live/CqInOxJEwoQ?feature=share. Para quem deseja se aprofundar nos diálogos com pensadoras latino-americanas, indígenas e decoloniais, a inscrição pode ser feita diretamente no site: aspensadoras.com.br/conteudos/feminismo-decolonial-pensadoras-indigenas.