Gisele Rose
Filósofa, escritora e professora
O comprometimento com a política feminista e com a luta pela libertação negra significa que tenho de ser capaz de confrontar as questões de gênero e raça dentro de um contexto negro, proporcionando respostas significativas para perguntas problemáticas e meios acessíveis e apropriados para comunicar pessoas.
– Bell Hooks
Revisitando o livro Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade escrito pela autora e ativista bell hooks nos últimos dias e, em meio a uma polarização política e um processo eleitoral conturbado, onde presenciamos mulheres se posicionando contra a luta feminina, vejo surgir no horizonte uma menina de apenas vinte e um anos nos ensinando a transgredir.
Ana Elisa Santos Silva surgiu como uma flecha que acertou no alvo do conservadorismo, lutando contra o machismo e o racismo há alguns anos ela vem driblando algoritmos e furando bolhas com suas colocações certeiras, voz firme e presença ancestral. Seu conteúdo é forjado na luta por uma sociedade e na esperança de dias melhores.
Conhecida atualmente como Ana Elisa a influenciadora digital recebeu 524.216 votos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e terminou a eleição em segundo lugar entre os candidatos a deputado federal em Minas Gerais, nascida em 31 de agosto de 2005, em Divinópolis é filha de uma mulher negra, professora e mãe solo.
Através de uma fala acessível, porém fortemente construída na base do estudo e pesquisa das mudanças sociais ocorridas em nossa sociedade os últimos anos, Ana Elisa nos brinda com a possibilidade de conscientização de uma juventude que não enxerga possibilidades reais de mudança política.
O fenômeno Ana Elisa nos faz refletir sobre até que ponto mulheres negras estão sendo devidamente ouvidas na nossa sociedade, pois tantas pessoas, inclusive a própria base política que ela defende não possuíam, até então, a devida noção da sua influência real e impactante na vida de pessoas com falas pautadas nas bandeiras do fim da escala 6×1, a defesa da educação pública, dos direitos dos trabalhadores e o combate ao racismo e à desinformação.
A surpresa e o fato da existência de uma menina negra retinta surgir como um esperançar de mudança das gerações futuras ainda se dá em função dos tantos atravessamentos que vivemos cotidianamente, produzir conhecimento acessível e ter a devida visibilidade é um entrave constante de uma sociedade machista e racista.
De acordo com bell hooks (2017) assim como muda nossa maneira de atuar, também nossa “voz” deve mudar. Na vida cotidiana, falamos de um jeito diferente com as diferentes plateias. Para nos comunicar melhor, escolhemos um jeito de falar determinado pelas particularidades e características únicas das pessoas a quem e com quem estamos falando. Nesse espírito, nem todos os ensaios têm a mesma voz, pois bell hooks (1995) vivemos numa sociedade fundamentalmente anti-intelectual e difícil para os intelectuais comprometidos e preocupados com mudanças sociais radicais afirmar sempre que o trabalho que fazemos tem impacto significativo, que Ana Elisa continue nos ensinando a transgredir, que os limites do machismo e racismo sejam rompidos. Sempre foi e sempre será pela vida das mulheres, que não sejamos interrompidas ou silenciadas.
Brasil, 14 de outubro de 2026.